TEXTOS

A ilha da família Sarney

16 de Janeiro de 2014

São Luis é uma ilha. A ilha do amor.
Uma cidade bonita, com azulejos portugueses nas paredes das casas e de alguns prédios imponentes.
Tem muita história: foi fundada por franceses, invadida por holandeses e colonizada pelos imigrantes de Portugal.
É abençoada com praias lindas e um povo generoso, mas em sua grande maioria extremamente pobre.
Capital do Maranhão, estado que também possui atrativos fantásticos. É o caso dos Lençóis Maranhenses, imensas porções de água em meio a dunas e restingas. Só vendo.
Há um porém. São Luis e o Maranhão têm dono: a família Sarney.

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A cidade e o estado estão nas manchetes, nestes últimos dias, por conta das misérias do presídio de Pedrinhas, um circo de todo os horrores.
A bem da verdade, não é uma exclusividade maranhense. O sistema prisional do país está falido. O Presídio Central de Porto Alegre também é retrato desse caos. Apenas morrem menos detentos do que em outros lugares. Mas aqui eles morrem, igualmente. E não apenas por doenças. São assassinados pelas falanges do crime.
O problema de Pedrinhas é a reincidência, a falta de um mínimo de comando das autoridades, o deboche dos criminosos, o domínio total do presídio por delinquentes que mandam na cidade, determinando onde e como as coisas devem acontecer. O incêndio de ônibus e a morte de uma menina consumida pelo fogo é apenas um exemplo.

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Pior que tudo, a meu juízo, é o deboche que vem do Palácio dos Martírios, a sede do governo do estado, onde está instalada Roseana, a filha dileta de José Sarney.
Em meio a concorrências para compra de lagostas, whisky escocês e dezenas de outras iguarias e bebidas especiais, destinadas a suprir as necessidades dos comensais da governadora, no Palácio e em sua casa de praia, Roseana mostrou-se perfeita oligarca ao responder às críticas recebidas.
Justificou as mortes bárbaras do complexo de Pedrinhas com duas afirmações inquietantes. A primeira é de que ''o Maranhão vai muito bem'', sabendo-se, como se sabe, que o estado apresenta alguns dos piores indicadores sociais do país. E a explicação que deu, em entrevista coletiva, para justificar o aumento da criminalidade, chega a ser perversa:
- Um dos problemas que estão piorando a segurança é que o estado está mais rico.

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O problema, além do mais, é que José Sarney estendeu o seu poder muito além dos limites do Maranhão. Foi eleito senador pelo Amapá e o governo federal, hoje, treme diante da possibilidade de precisar enfrenta-lo.
Ele tem enorme força política. E manda.
Lembro bem o dia em que vi o senador pela primeira vez.
Foi no Congresso Nacional.
Ouvi, de repente, um burburinho e uma movimentação inusitada.
Alguém caminhava pelos corredores acarpetados, rodeado por uma multidão de assessores e seguranças. Perguntei quem era o nobre que estava chegando e me informaram que era ele, José Sarney.
Isso foi antes que chegasse à Presidência da República, depois do acidente histórico de Tancredo Neves.
Ali estava um potentado da República.
E ele continua a sê-lo.


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