TEXTOS

A última das vaidades

23 de setembro de 2011

Era uma noite serena, de lua cheia - hora errada de alguém morrer - e eu me via às voltas com a seleção de temperos para um “caldo lagoano” a ser feito a quatro mãos. Estava à espera da minha doce Isaura.
Foi quando chegou a notícia da morte de dona Branquinha.
E a filha, ainda jovem e agora herdeira única das terras e dos moinhos da família Alcântara, apelava a mim para que a amparasse nessa hora difícil, especialmente porque desejava testemunhar no bronze toda a saudade e o amor filial.
Tenho alguns conhecimentos de português, o bastante para não me atrapalhar com pontos e virgulas. Daí a escrever textos de saudades, vai enorme distância. Essa, definitivamente, não é minha especialidade.
Abandonei os preparativos do jantar e fui ao encontro da moça, aquele seu pedido martelando na minha cabeça. Por isso, quando atravessei a rua, na altura do prédio da Rádio Fronteira, ocorreu-me a idéia da qual nunca tive arrependimento: quem melhor do que um radialista como Altamiro para essa tarefa? Mais: ele tinha reconhecida veia poética. Não era segredo que, à hora da Ave Maria, às seis em ponto da tarde, não apenas as muito beatas, mas também viúvas, desquitadas e solteiras esperançosas sintonizavam o rádio. Postadas com ar solene, algumas de joelhos, outras aos soluços, todas faziam promessas aos santos, em meio aos poemas à Virgem e louvações ao Senhor, na voz do “locutor da fé”, como ele mesmo se intitula.
- Mas o que é isso, parceiro? – exclamou Altamiro, embaraçado. - De defunto eu quero distância, sempre. Você sabe que não vou a cemitério nem mesmo em Dia de Finados! Meu avô costumava dizer: é nos enterros que o Velhinho lá de cima escolhe o próximo.
Conheço-o o suficiente para saber como arrefecem esses rompantes. E, de minha parte, não sou de desistências fáceis. A perspectiva de uma boa recompensa por parte da roliça Janete Maria, além de ser ela mesma uma boa oferta, fizeram-me convencer Altamiro.
No dia seguinte, na lápide de granito preto, a inscrição em letras douradas:
“Aqui jaz a senhora dona
BRANCA DE ALCÂNTARA,
benfeitora de Lagoão da Serra e de todo continente.
Lembrança eterna da filha amantíssima”
Considerei um tanto de exagero aquela “benfeitora de todo o continente”, mas as justificativas de Altamiro faziam sentido:
- As fazendas de dona Branquinha não atravessam fronteiras? E em cada família de todas essas redondezas não tinha a bem-aventurada pelo menos um afilhado?
Na undécima hora, um pequeno problema. Janete Maria olhou o granito e reclamou, encrespada, a falta de sua assinatura. Não a comoveu o argumento de que, na condição de filha única, era ela a própria, a amantíssima. O padre falara em pósteros na sua homilia e a moça, depois de saber o que aquilo significava, encontrou uma justificativa a mais para querer o seu nome na pedra.

XXX

- Temos agora nosso escritor mortuário - proclamou o bioquímico Germano, quando Altamiro surgiu no bar do hotel, na manhã seguinte, à hora do aperitivo do grupo de sempre.

CONTINUA


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