TEXTOS

A última das vaidades (continuação)

23 de setembro de 2011

- Mas o que é isso? Escritor? E mortuário? - protestou Altamiro - Escritor é quem é literato, homem de imaginação e talento, capaz de escrever romances, assim como dizemos poeta aquele que tem o dom de fazer versos. Sou um mero radialista, quem sabe com alguma capacidade de bem artesanar as palavras... - E emplumou-se, deixando no ar a indagação.
- Pois se não é escritor, como se chamará? - retrucou Germano. - Escrevinhador, escrevedor, escriba, escrevente? Ou devemos dizê-lo apenas redator de epitáfios?
- Epitafista, eis o que é - sentenciou, do alto de sua sabedoria e dos seus cabelos desalinhados, o professor de português Arquimedes Bosak.
Ninguém ousou contestar e recolhi a impressão de que agradou a Altamiro o novo título. Tremeu o olho esquerdo e levou a taça aos lábios.

XXX

Recorrer ao epitafista Altamiro passou a ser um hábito em Lagoão dos Quadros.
E devo registrar, a bem da verdade, o quanto ele se dedicou a seu novo encargo. Ainda que a mim não agradasse, aprazia-lhe buscar citações na Bíblia, e isso encantava aos familiares dos mortos, que nem sempre entendiam o exato sentido do que ali estava escrito.
Momento especial ele viveu quando da morte do “comendador” Vicentino Amoreiras. Um amigo havia visto coisa semelhante no exterior e ele armazenara a idéia para momento apropriado. Assim, quando os filhos do ricaço atacadista decidiram homenagear tão ilustre figura e saíram em busca de sugestões, ele viu chegada a hora. Altamiro lembrou das caminhadas do velho e sugeriu a colocação de um banco de ferro, na curva do lago, com placa de bronze alusiva:
“Senta-te e bebe na fonte do Senhor”
“Amante da natureza, Dom Vicentino caminhou por estas margens, contemplou as águas plácidas do lago, sonhou com a grandeza desta terra e ajudou a melhorar as condições de vida de sua gente.”
Homenagem da família Amoreiras a Lagoão dos Quadros”
O banco e a placa foram descerrados com banda de música e discurso de autoridades.
Além de alguns momentos de grande prestígio, ele teve também outros ganhos. Passou a receber, a cada encomenda, um percentual da marmoraria e de outros fornecedores. E a tudo justificava com uma citação por ele repetida, de um estadista sueco: “O epitáfio é a última das vaidades do homem”.


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