TEXTOS

A mulher das ancas quebradas

23 de setembro de 2011

No res¬caldo do incêndio, caiu-me às mãos o exemplar esfumaçado e ressequido de um caderno pautado onde se lê: "De como atuar no território de Vila Esperança, onde vive uma popu-lação miserável. E a menos temente a Deus, porque mais submetida ao de¬mônio...” Também é possível identificar parte da assinatura do autor do manuscrito: Simões.
Meu interesse pela história da mulher das ancas quebradas começou ali, em meio às cinzas da casa do Bispado.
A Vila fica em Santiago da Boa Vista, na região frontei-riça. Uma fronteira in¬comum, lugar onde não se dividem apenas as terras. Lá, além de esperanças e desencantamentos, competem e convivem fantasias e verdades e, de tanto que sobre elas os homens falam, al¬gumas se interligam, outras se tornam lendas.
Sei bem o quanto é difícil para quem vem de outras lon-juras entender esse jeito de ser e de viver. Confesso que também eu já me embaracei, em algumas histórias repetidamente narradas, entre o que de fato foi, o que pode eventualmente ter sido e o que certamente nunca será.
Neste caso, importa muito, a meu ver, o quanto há nele de verdade. Da primeira vez em que ouvi a história, de um velho porteiro noturno do Hotel dos Estrangeiros, garantiu-me tratar-se de verdade verdadeira e apontou-me como uma prova a mais o caderno esfumaçado que lhe mostrei. Depois, muitos foram os testemunhos, com novas versões, sobre a história da mulher das ancas quebradas.

X X X

Na Vila Esperança, sempre que soprava o vento norte - e ele uiva até hoje naquelas esquinas envelhecidas - logo vinha à lembrança dos nativos o fantasma da mulher montada num reluzente cavalo negro. Os homens gritavam às mulheres e estas aos filhos e todos se exilavam em suas casas. Duas velas de cera eram acesas, uma para queimar enquanto durasse a tempestade e a outra introduzida no ralo mais fundo de cada morada e cada rancho. E todos se postavam reverentes, dia e noite, até chegar ao fim a tremura das velas. Porque, com o vento, vinha sempre a des¬graça: mais dia, me-nos dia, alguém do povoado iria morrer.
Rezavam.

X X X

Shirlene era bonita e virgem, tinha casamento marcado com o dr. Eufrázio, médico e herdeiro de outra família tradicional. Haveria de ser, se tivesse acontecido, a maior festa de bodas da his-tória do lugar.
Naquele domingo de sol em que foram à fazenda, ela escolhera um cavalo negro para montar. Elegante nos trajes de amazona, os cabelos esvoaçantes, andava a galope pelo campo, até que uma cascavel assustou o animal e ele se lançou em disparada para os lados do centenário muro de pedras. Shirlene foi jogada a três metros de distância e ficou ali, inconsciente, ossos retorcidos na altura da bacia.
As dores que sobrevieram ao acidente e meia dúzia de cirurgias crisparam o rosto da moça e ele deixou de ser bonito e a-legre. Com o tempo, o amargor da felicidade esquecida repuxou um dos cantos da boca, e aquela tortuosi¬dade foi se acentuando, de tal forma que o rosto tremia e os olhos faiscavam de um jeito cada vez mais assustador.

CONTINUA


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