TEXTOS

A mulher das ancas quebradas (continuação)

23 de setembro de 2011

Durante os meses de convalescença, um peão moço e preto, Pedro Nerzo, era chamado para carregá-la. Tinha fortes braços de estivador, e ela aos poucos dele se enamorou, por conta da quentura desconhecida de um corpo musculoso com tempero de mato. Tempos depois, numa noite de trovões e relâmpados e ela com formigamentos, Shirlene balbuciou o nome Pedro Nerzo. Ele foi chamado. Ela pediu que a deixassem a sós, e aos poucos foi nele se enrodilhando, com gemidos nunca ouvidos antes pela gente do lugar.
Já era madrugada quando ela abriu as coxas, decidida, e Pedro Nerzo introduziu-se no corpo mutilado.

XXX

Shirlene desistiu do ofício de advogada, isolou-se para sempre na fazenda e, depois de algum tempo, passou a lecionar para as crianças da redondeza. Foi aí, segundo contam, que se revelou a enorme maldade por ela armazenada. Além do português, tratava de ensinar aos jovens alunos for¬mas sutís de tortura a serem aplicadas em suas namoradas. E às meninas bonitas repetia a idéia de que o sexo era obra e coisa do demônio.
As necessidades de seu próprio sexo - e por elas Shirlene cho¬ramingava nas madrugadas, em especial nas noites barulhentas de inverno - eram aplacadas pelo negro forte da fazenda, convo¬cado sempre que preciso pelo capataz, homem de confiança do pai da moça.
Morreu antes dos trinta anos, em outra noite de tormenta, o granizo estrugindo nas portas, as janelas ameaçando explodir. Por volta da meia-noite, os uivos de Shirlene se confundiam com os do vento norte, e Pedro Nerzo foi chamado. Ao amanhecer, a chuva era escassa. E Shirlene estava lívida na camisola branca.

X X X

Voltei há pouco tempo a Santiago da Boa Vista, para bus-car os detalhes que me faltavam da história. Dos envolvidos di-retamente, ninguém mais vive. Mas há quem refira os pais e os a-migos para confirmar a lenda. Já está um tanto esquecida, muito por ação de um jovem padre, Agostinho de Simões, na sua pertinácia de fazer retornar à Igreja os incrédulos da Vila Esperança.
De acordo com alguns testemunhos, foi na verdade um antigo pároco de Santiago, então vivendo no Bispado, quem deu conselhos e bem orien¬tou frei Agostinho. O certo é que, a partir dessa conversa, mudaram alguns rituais e a igreja agora permanece iluminada, nas noites de tempestade, graças aos círios espalhados por todos as fendas da capela.


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