TEXTOS

Palocci e a minha ingenuidade

02 de Junho de 2011

É, devo admitir, fui ingênuo.
Fui ingênuo há duas semanas, quanto escrevi que a solução para o enigma do estupendo enriquecimento do sr. Antonio Palocci, atual Chefe da Casa Civil da Presidência da República, era de simples solução: bastaria que ele informasse quando, quanto e a quem ele prestou seus serviços de consultoria.
Coisa simples, não?
É verdade que a cifra impressiona: vinte milhões de salários (ou remuneração por consultoria) em menos de um ano e multiplicação do patrimônio vinte vezes em apenas quatro anos não é para qualquer mortal . Mesmo que o cidadão seja deputado federal. Ou apesar disso.
Há algumas outras dúvidas: o trabalho de consultoria tão exitoso foi traduzido em pareceres, em estudos técnicos? Ou foram apenas alguns telefones endereçados a números privilegiados da Esplanada dos Ministérios e do Palácio do Planalto?
Além da compra de um apartamento de R$ 6,6 milhões e um escritório no valor de R$ 880 mil, o restante foi aplicado onde, quando?
Ok, os contratos têm cláusulas de confidencialidade. Digamos que sejam legais. Mas fica bem moralmente para um homem de Estado manter esses segredos que misturam o público e o privado?
Há muitas consultorias em funcionamento no país. Todas elas, regra geral, possuem um número expressivo de analistas e estudiosos, para subsidiar indicadores, caminhos e aconselhamentos.
Não é estranho que, até agora, não se tenha conhecimento sequer de um nome que fizesse ou faça parte da equipe especializada do ex-ministro da Fazenda, depois ex-deputado e hoje novamente ministro?
Ainda a propósito: há uma outra dúvida no currículo do ex-ministro da Fazenda. Ele deixou o governo Lula depois de patrocinar (ou ter se omitido, ou convalidar) a quebra do sigilo bancário do caseiro que cometeu o pecado de reconhecê-lo como participante de reuniões e de outros eventos numa suspeita mansão brasiliense. Também há alguns episódios pouco claros na sua passagem pela Prefeitura de Ribeirão Preto.
E à exceção de uns poucos para quem Pallocci já prestou todas as informações necessárias (embora ninguém as conheça), a grande maioria navega com extrema cautela nesse barco um pouco à deriva.
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, sugeriu no início desta semana, que o chefe da Casa Civil afaste-se do cargo até que tudo se esclareça.
Não seria uma providência incomum. No governo de Itamar Franco, Henrique Hargreaves ocupava o mesmo cargo agora de Palocci. Acusado de irregularidades, Itamar o afastou preventivamente. E o trouxe de volta para o cargo, depois de provada sua inocência, induvidoso e prestigiado. Os tempos são outros, é verdade. Algumas idéias éticas básicas já não o são.
Ao resistir no cargo, Palocci pode estar prestando um enorme desserviço à Presidente D ilma Roussef. Ficará purgando por um longo tempo a ferida aberta?
Ouvi, esta semana, que Palocci deve conceder uma entrevista hoje, quinta-feira, depois do parecer da Procuradoria Geral da União, inocentando-o.
Que assim seja, para o bem do país.
E para que eu não seja, definitivamente, um ingênuo.