TEXTOS

Palocci e a minha ingenuidade (II)

09 de Junho de 2011

De um advogado amigo, recebi e-mail a propósito do comentário aqui feito na última semana, com duas perguntas:
''a) - Como foi possível conciliar o tempo do mandato de Deputado Federal, com atuação marcada na Câmara, e o exercício das relevantes (e gratificantes) atividades de Consultoria ? Ambas são atividades que demandam reuniões e muita conversa;
b) - Presente o vasto leque de empresas (sem identidade revelada) que foram recipiendárias dos ''conselhos paloccianos'', quais os profissionais, de alto nível, que puseram a mão na massa, para elaborar os pareceres/ parecidos? Não precisaria ser exaustivo, bastaria a indicação dos coordenadores de tais grupos. Os concorrentes que operam no segmento de Consultoria - alguns ex de cargos importantes - coordenam a atuação de economistas, advogados, engenheiros, administradores, profissionais de informática, etc., etc. O grupo de Consultores de Alto Nível é restrito, no Brasil.
Tenho dito aos amigos brasilienses e repito para ti: nós não veremos uma República saudável, o que, presumo, possa ser aspiração de nossos netos.''
XXX
Respondi assim:
''Também não tenho eu resposta para tuas perguntas inquietantes.
E talvez nunca as tenhamos.
Neste início de noite de terça-feira, o ministro Palocci demitiu-se do cargo de Chefe da Casa Civil. Saiu tardiamente, e sem dar as explicações que está a exigir o país inteiro – aí incluídos bom número de seus parceiros de partido.
A demissão (ou a queda, ou a ação combinada entre a Presidente e o ministro, como preferir) de Palocci do Palácio do Planalto não resolve o problema.
Pode ter solucionado a crise instalada no governo há vinte e três dias, desde a edição da Folha de São Paulo que denunciou a existência da empresa Projeto, de propriedade do agora ex-ministro, e responsável por fantásticos honorários de consultoria que multiplicaram vinte vezes o patrimônio pessoal de Palocci.
Quer dizer: nós todos vamos continuar sem saber como ele ganhou tanto, em tão pouco tempo, com seus aconselhamentos e pareceres, se é que eles existiram.
Mas ele continuará a existir. É um homem público, mesmo que fora do Executivo, com seu passado e suas circunstâncias.
E suas circunstâncias incluem duas saídas de governo marcadas por ações e comportamentos não bem explicados.
Sobre ele recairá sempre uma suspeição indesejada por qualquer homem de bem.
Concordo contigo: nosso tempo dificilmente terá a chance de ver uma República saudável. Quem sabe nossos netos possam sonhar com ela?
Ainda sobre o dr. Palocci: se o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, depois de examinar a documentação que lhe enviou o ex-ministro, concluiu que não há indícios de crime, porque essas informações não podem ser tornadas públicas?
Ou é apenas ingenuidade minha, mais uma vez?''