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Os gaúchos amantes do Rio

17 de Novembro de 2011

Diz-se que nós, gaúchos, temos uma atração especial pelo Rio de Janeiro: seríamos os mais cariocas dos brasileiros não nascidos por lá. É certo que, desde muito, famílias abonadas, estancieiros em sua maioria, tinham por hábito permanecer por terras cariocas durante os períodos de inverno.
De minha parte, não desminto esse fascínio.
O Rio de Janeiro sempre me encantou e lá vivi alguns bons e inesquecíveis momentos quando diretor da sucursal do Correio da Manhã em Porto Alegre. Essa função me obrigava a viagens constantes à ex-capital da República, num tempo do início da década de 70 em que ainda não havia acontecido a tomada das favelas pelos traficantes. Perambular, à noite, por bares, restaurantes e boates de Copacabana e Ipanema, era certeza de horas prazerosas. ''Nego Moacir'', ex-assessor de Jango, gaúcho há muito tempo radicado no Rio, era assim carinhosamente chamado pelo futuro governador Marcelo Alencar, então diretor do jornal. Ele caminhava pela orla, em direção a seu apartamento na Praça Serzedelo Correia, respirava a brisa vinda do mar e repetia: ''Isto é tão bom que tem cheiro de sexo''.
Aos poucos, aconteceu o que todos sabem: os morros tornaram-se fortalezas de onde o tráfico exerce um poder paralelo ao do Estado. O Rio foi perdendo boa parte de seu charme. E, com isso, deixamos de visitá-lo com a frequência desejada.
A retomada do controle das favelas da Rocinha e Vidigal, no último fim de semana, pelas forças de segurança do Governo do Estado, com apoio do Exército e da Marinha, parece sinalizar um novo tempo. Que assim seja.
Há muitas incertezas, ainda, apesar do sucesso dessa operação inicial. Não é fácil, de um dia para outro, remover todas as raízes de um organismo corrupto e corruptor comandado pelos grandes barões do tráfico.
'' Nem pagava aluguel de quem precisava, dava cesta básica, ajudava as creches. Quero ver o governo fazer isso'', desafiou uma moradora da Rocinha.
Sim, esse é um dos grandes desafios do Estado: levar desde já serviços adequados e essenciais àquela comunidade. Porque era mesmo assim: Nem, o chefe do tráfico na Rocinha, fazia esses pequenos favores. Em troca, num sistema de cumplicidade, ele comandava não apenas a distribuição de drogas, mas também os serviços clandestinos de gás, transporte alternativo e TV a cabo, por exemplo.
A prisão de traficantes, a ocupação pacífica das favelas, as denúncias de moradores honestos – a grande maioria – por outro lado, são estímulos ao esforço para que o Rio volte a ser, a médio e longo prazo, não apenas a cidade linda, mas a cidade segura.
E tudo isso se deve, em grande parte, a um gaúcho de Santa Maria que, como tantos de nós, ama o Rio. José Mariano Beltrame, secretário de Segurança, é um homem sereno,
inteligente, articulado. Ouvi uma bela entrevista sua esta semana. Tem perfeita consciência dessa tarefa imensa que o Estado tem pela frente. E o tanto que lhe compete.