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Nós e as ''lições da Europa''

27 de Novembro de 2011

Tenho dois bons e constantes interlocutores em Lisboa: Rui Repolho, executivo de uma importante rede hoteleira, e Itamar, meu irmão mais moço que lá vive há quase trinta anos.
Conversamos, com frequência, sobre a crise européia e surgem quase sempre inevitáveis comparações com a realidade do Brasil. O tema desta semana foi a greve que paralisou Portugal na última quinta-feira, organizada por todas as centrais sindicais do país.
As razões do protesto, síntese dos males e dificuldades do país:
- o atual governo seria mais ''troikista'' que a própria ''troika'', quer dizer, está indo além do que foi acordado, em termos de redução de despesa e também de benefícios e salários.
- a ''troika'' (assim chamado o grupo de socorro aos países em crise: FMI, Banco Central Europeu, e Comissão Européia) elogiou, há poucos dias, a ''eficiência'' do governo e liberou novos recursos.
- a crise tem levado os jovens a emigrar, e agora homens e mulheres de 40/50 anos começam a deixar Portugal, preferencialmente para Suíça, França e Angola.
- também os ''cérebros'' do País procuram emprego no exterior, onde há melhores condições de trabalho e melhores salários;
- os bancos reduzem e recusam empréstimos a pequenas e médias empresas, o que as coloca em risco; já se prevê, para 2012, um aumento na taxa de desemprego, hoje de 12,5%.
- são os mesmos bancos que, com juros favoráveis, haverão de se apropriar da maior parte do dinheiro que a ''troika'' aprovou.
- continuam os cortes nos salários dos funcionários públicos que não terão subsídios de férias e gratificações natalinas, nos próximos dois anos.
- 2012 deve ser ainda mais difícil; 2013 é o horizonte para uma lenta retomada do crescimento econômico.
O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e presença habitual em fóruns no Brasil, acaba de produzir um comentário bastante amargo sobre as ''lições da Europa''.
Entre estas, uma advertência: ''a democracia pode desaparecer gradualmente e sem ser por golpe de Estado. Vários países da Europa vivem uma situação de suspensão constitucional, um novo tipo de Estado de exceção que não visa perigosos terroristas, mas, sim, os cidadãos comuns, os seus salários e as suas pensões''.
Antes da conclusão, Boaventura critica a direita e a esquerda por um quadro tão desafiador: a direita porque usou a crise para aplicar a ''doutrina de choque'' das privatizações e da destruição do Estado social, e a esquerda por não ter tido capacidade de propor uma alternativa a esse ''senso comum'' neoliberal.
Resta-nos esperar que, no Brasil, saibamos identificar os pontos convergentes das causas dessa realidade portuguesa e européia. E que eles sejam corrigidos, a começar por reformas essenciais, como é o caso da previdenciária e da política.