TEXTOS

As perigosas apostas da Presidente

16 de Junho de 2011

Ao ocupar cargos públicos, ao longo da minha carreira, sempre que possível tratei de me assessorar de mulheres. E também as fiz assumir funções de relevo em diretorias e departamentos. O resultado final foi o esperado. Com raras exceções, além de competentes, elas se mostraram responsáveis, seguras, equilibradas.
Comecei no jornalismo quando a presença de mulheres era ainda muito rara nas redações. E as vi chegarem cada vez em maior número, até que hoje elas predominam amplamente nos espaços de quase todos os gêneros da comunicação.
Assim como no jornalismo, competem com os homens em praticamente todas as áreas profissionais e queixam-se – com inteira razão - de que apenas os salários mudam conforme o sexo: os homens são mais valorizados.
Essas lembranças me ocorrem a propósito das mudanças no ministério da presidente Dilma Roussef e da constatação feita pela conhecida escritora e feminista Rose Marie Muraro: um estudo das Nações Unidas, feito em 128 países, no ano 2000, apontou que onde existiam mais mulheres no poder, menores foram os índices de corrupção. Onde a mulher era mais reprimida e estava mais distante do poder, havia taxas de corrupção altíssimas.
E acrescentou Rose Marie, esperançosa com a maior presença feminina no Palácio do Planalto:
''Embora todas elas, Dilma, Gleisi e Ideli tenham essa fama de dureza, são mulheres, e as mulheres lutam mais pelo interesse dos outros, enquanto os homens lutam mais pelos próprios interesses''. A nomeação da senadora Gleisi Hoffmann para a chefia da Casa Civil - o mais importante posto do ministério – surpreendeu a muitos, por ser uma figura recente no cenário político nacional. Mas logo ela se mostrou articulada, corajosa e soube-se de seu currículo. Sim, ela tem experiência exitosa em cargos públicos relevantes, como é o caso da Diretoria Financeira da Itaipu Binacional.
Há um risco para a presidente Dilma na indicação de Gleisi: ela é casada com o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. E, se em qualquer momento, surgir alguma dificuldade que exija a demissão de um ou de outro, a Chefe da Nação vai se ver às voltas com dois problemas, pois é natural que o subordinado demitido (ou demissionário) tenha a solidariedade do cônjuge e se sinta na obrigação de também deixar o ministério.
Maior surpresa que a escolha de Gleisi foi a promoção da ministra da Pesca, Ideli Salvatti, para a delicada função de Secretária de Relações Institucionais, organismo responsável pela articulação política do governo com todas as forças que o apóiam e com o Congresso Nacional.
Ela é conhecida, até aqui, muito menos por habilidades e muito mais por sua truculência e defesa intransigente do governo Lula e dos mensaleiros, quando senadora.
Portanto, duas apostas perigosas da presidente da República.
Tudo pode dar certo, mas para o bem da contínua e merecida ascensão das mulheres, as escolhas poderiam ter sido outras.
E votos de que a corrupção brasileira seja cada vez menor.