TEXTOS

A ardilosa censura argentina

29 de Dezembro de 2011

A Argentina, mais especialmente Buenos Aires, tem sido sempre, para nós, brasileiros, uma referência cultural. Mesmo aqueles que reagem à propagada prepotência dos portenhos, são capazes de reconhecer que os padrões por lá são outros. Basta conversar com um taxista de verdade – porque há muitos clandestinos – ou visitar uma boa livraria – e elas também são muitas – para saber que temos diferenças essenciais. Sem falar no Teatro Colón, nos talentos da música, da literatura, do cinema.
A propósito de livrarias: na próxima ida à capital argentina, se já não conhece, vá visitar El Ateneo, na Santa Fé. O prédio, um antigo teatro, foi transformado numa das mais fantásticas casas de livro que conheço. Há outra no Porto, em Portugal, igualmente uma referência. Mas são distintas. E por serem distintas se igualam, como diz o poeta.
Pois a presidente Cristina Kirchner, recém reeleita, está decidida, na sua ânsia de poder desmedido, a acabar agora com outra tradição argentina: a excelência dos jornais.
Também eles sempre foram referenciados.
Recordo quando, no processo de modernização dos jornais gaúchos, nos anos sessenta do século passado, fomos lá buscar diagramadores experientes, a exemplo do que já haviam feito veículos do Rio e São Paulo.
Vários profissionais estiveram aqui e alguns aqui se fixaram, como foi o caso de Aníbal Bendati, que acabou professor de jornalismo na PUC e na UFRGS, depois de ter se casado com a também jornalista Iara Bendati.
Outro diagramador e chargista com quem muito convivi e muito aprendi foi Guillermo Ares, trazido para o Diário de Notícias por Nelson Dimas Filho. Voltemos à senhora Cristina, Presidente da República argentina.
Ela não gosta de ser criticada.
E como a imprensa tem, entre outros, esse dever de acompanhar, fiscalizar e criticar ações de governo e de governantes, sempre que isso for necessário, ela tem se insurgido, com frequência, contra os maiores jornais de Buenos Aires, especialmente o Clarín e o La Nación.
Com ampla maioria no Judiciário e no Congresso, não lhe está sendo difícil conseguir medidas de cerceamento da ação de jornais e jornalistas, apesar do protesto veemente de profissionais e entidades de imprensa de toda a América.
O último ato foi a aprovação, pelo Senado, de uma lei que transforma o papel-jornal em insumo ''de interesse nacional''.
Ocorre que os grupos econômicos que controlam aqueles dois veículos são acionistas majoritários da Papel Prensa, principal fornecedora de papel do país, da qual o governo participa com 27% do capital.
Cristina quer agora aumentar a presença do governo na empresa, de tal forma que o produto passará a ser distribuído para quem ela bem entender. Os beneficiados serão os amigos do governo, é claro, como já ocorre hoje com a repartição das verbas de publicidade.
É uma forma ardilosa, embora não original, de controle da imprensa, sem necessidade de censura direta.