TEXTOS

A desfaçatez nos transportes

07 de Julho de 2011

Tantos são os escândalos, as falcatruas, os desvios de dinheiro público, os ''mensalões'' e ''mensalinhos'', os ''esquemas de propina'' montados na administração pública federal, que nada mais surpreende.
Este episódio do Ministério dos Transportes, entretanto, tem algumas conotações diferenciadas.
Recorde-se, para o leitor menos avisado: a última edição da revista Veja denunciou a existência de uma quadrilha instalada naquele ministério, composta pelos principais homens de confiança do ministro Alfredo Nascimento, com a participação direta do presidente de honra do PR, ''mensaleiro'' indiciado e deputado federal, Valdemar Costa Neto.
Esse cidadão tem uma ficha tão farta que o senador Pedro Simon, nesta terça-feira, foi explícito: ao invés de participar de reuniões no gabinete de Nascimento, o deputado Valdemar deveria ''estar preso''.
O PR, ou Partido da República, detém em suas mãos esse Ministério desde o governo Lula, e lá permanece graças ao apoio e indicação do ex-presidente.
O que faz a quadrilha?
Simples: superfatura obras, e elas são todas gigantescas. Estradas, pontes, viadutos, ferrovias. É muito dinheiro.
Esse superfaturamento implica numa contribuição, ou ''pedágio político'', de 4% sobre todos os contratos, para os cofres do PR. É muito dinheiro, sim.
Um significante exemplo gaúcho: a tão sonhada duplicação da ponte do Guaíba (2,9 km) tem um custo estimado de R$ 1,16 bilhão, ou seja, R$ 400 milhões por km.
Na China, acaba de ser inaugurada uma ponte construída sobre mar aberto, com 42 quilômetros de extensão a um custo de R$ 2,4 bilhões, ou R$ 57 milhões por km.
A comparação é incompreensível ou inexplicável, certo?
Errado.
Na China, não há contemplação com corruptos. Eles são condenados à morte.
A presidente Dilma Roussef afastou os principais membros da quadrilha, aí incluídos o chefe de gabinete do ministro, Mauro Barbosa, e o diretor do DNIT, Luiz Antonio Pagot, responsável por um orçamento de R$ 15,5 bilhões em 2011.
E o ministro? O ministro foi poupado, ao menos por enquanto. E por que? Porque o seu partido, do qual ele é o presidente, tem uma bancada de 41 deputados e 6 senadores. E o governo precisa desses votos. Tanto é que, logo após o afastamento dos implicados, o PR mandou avisar que viria o troco. Convenhamos: é muita desfaçatez!
Na manhã de ontem, uma revelação a mais: o filho do ministro Nascimento, o arquiteto, de 27 anos, Gustavo Morais Pereira, está sendo investigado pelo Ministério Público por se revelar um empresário fantástico. Multiplicou 86,5 mil vezes seu patrimônios, entre 2001 e 2007. Através de contratos com o poder público, claro.
Incentivos Fiscais
Do meu amigo Alberto Oliveira, ex-Chefe da Casa Civil e ex-deputado, recebi e-mail sobre artigo relativo a incentivos fiscais (30/06): ele espera viver o dia em que, no Brasil, sejam eliminados todos os incentivos fiscais, de qualquer área, em qualquer setor, para qualquer empresário e com uma ressalva: que seja para todos os Estados do Brasil. ''Esse instrumento, no nosso país, tem poucos ganhadores (normalmente quem não tem condições de assumir a competitividade no seu nível mais franco), mas tem sempre um perdedor: o contribuinte''.

P.S. – No final da tarde de ontem, o ministro dos Transportes não resistiu. Está fora do governo.