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Jornalistas e jornais não podem tudo

21 de julho de 2011

A imprensa é, com frequência, denominada quarto poder. Ou seja, além do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, há outra poderosa instituição, não legitimada nas Constituições, mas autenticada pelo respeito das comunidades onde cada veículo de comunicação atua, e pelo temor de muitos alçados ao comando de organismos do Estado.
Vi bastante ao longo desses anos de convívio com mulheres e homens ligados à imprensa ou instalados em postos de governo.
Nem sempre é um convívio fácil, porque raros são os governantes que aceitam a crítica com tranquilidade. Muitas vezes querem eles influir diretamente na linha editorial dos veículos, e não são poucos os pedidos para que rolem cabeças nas redações. Qualquer menção ao governo é logo transformada em problema de ordem pessoal.
Na maioria dos casos, a crítica fundamentada serve de baliza para o administrador público e pode e deve ser um instrumento eficaz de aperfeiçoamento das ações e da máquina de governo.
Mas jornalistas e veículos de comunicação não estão imunizados contra erros, equívocos e até mesmo a eventuais críticas injustificadas.
Nesses casos, compete ao homem público restabelecer a verdade e ao veículo de comunicação divulgar o esclarecimento.
Jornalistas e jornais não podem tudo.
E exatamente por isso, as empresas de comunicação, regra geral, cercam-se de cuidados para evitar desacertos.
Há muito tempo que os manuais de redação deixaram de ser apenas um catecismo de boas intenções e se tornaram, na maioria dos veículos, regras rígidas de fazer jornalismo com independência e com responsabilidade.
Foi o que não praticou o News of the World, um dos mais importantes jornais ingleses, de propriedade do multimilionário e poderoso homem de comunicação Rupert Murdoch.
É quase com certeza o maior escândalo da história da imprensa. (Não recordo, neste momento, de nada semelhante).
E as consequências dos telefones grampeados de forma ilegal por jornalistas daquele veículo ainda não chegaram ao fim.
Nesta terça-feira, o magnata da imprensa e seu filho, James Murdoch, pediram perdão no Parlamento britânico. "É o dia em que me sinto mais humilde de toda minha vida", disse Murdoch, de 80 anos, aos integrantes do Comitê de Meios de Comunicação da Câmara dos Comuns.
Disse mais: a "vergonha" que sentiu pelo episódio foi o que o levou a decidir pelo fechamento do tablóide, o mais vendido do Reino Unido, com 2,7 milhões de exemplares.
E confessou ter se sentido "impressionado, horrorizado e envergonhado", quando, há duas semanas, soube que entre os telefones interceptados pelos jornalistas do News of the World estava o de uma menina assassinada.
O perdão e a vergonha explicitados talvez não sejam suficientes para conter a crise e o escândalo.
Murdoch já fechou o jornal, foi obrigado a desistir de um negócio de 12 bilhões de dólares - o controle da rede de TV por satélite BSkyB – e não sabe onde tudo vai terminar.
É o preço de um comportamento irresponsável.
Prova provada de que jornalistas e jornais não podem tudo.