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A crise e o ânimo dos portugueses

04 de Agosto de 2011

Lisboa, 02-agosto - Sim, é visível, não há como negá-la. A crise econômica em Portugal nós a vemos por todos os lados e em todos os lugares. Está na expressão dos rostos lusitanos, nas conversas de mesa do bar, nas manchetes dos jornais e, em especial, no bolso dos trabalhadores portugueses.
Muitos deles tiveram seus salários reduzidos – alguns com redução da carga horária - e ontem entrou em vigor um aumento enorme nas tarifas dos transportes coletivos, superior, em certos casos, a 20%. Também já está decidido um corte expressivo no 13° salário do final do ano, numa escala variável, conforme o tamanho dos rendimentos acima do valor do salário mínimo.
Como disse meu amigo Artur Augusto Monteiro Inácio, um português de Viseu que há anos é responsável pela banca de jornais e a loja de souvenir do hotel Villa Rica, os trabalhadores vão sentir ainda mais a crise depois do corte do subsídio natalino e as despesas de dezembro.
Ninguém está confortável, com certeza. A começar pelos integrantes do governo há pouco empossado, sob o comando de Passos Coelho (sucessor de José Sócrates), obrigado a cumprir os acordos assinados junto ao Banco Mundial e ao FMI. E isso implica, indispensavelmente, além de promessas de austeridade, em novos cortes de benefícios e aumento do desemprego.
Mas se há uma crise instalada, também e simultaneamente, parece-me haver um sentimento de orgulho ferido e uma busca obstinada por novos caminhos. É um povo que tem belíssima história, e as novas gerações estão aí dispostas a honrar o passado e enfrentar os desafios do agora.
A imprensa está fazendo sua parte.
O Expresso promoveu uma série de conferências dedicadas ao tema ''Portugal nos próximos três anos'' e, na última delas, ''Uma nova mentalidade'', a resposta foi claramente afirmativa para a pergunta: ''Pode a crise ser positiva para Portugal e para os portugueses''
Raul Diniz, professor da AESE – Escola de Negócios é extremamente didático:
''Nas crises, as sociedades vingam-se das injustiças ou das desordens cometidas. A sociedade tem processos de autogênese e volta a uma regeneração de valores que lhe permite subsistir. Entre os valores que se perderam encontra-se a cultura de austeridade, dando lugar à ansiedade do prazer imediato''.
O Diário de Notícias, por sua vez, neste mês de agosto, entrevista uma personalidade, a cada dia, revelando o que cada um quer, o que de melhor tem Portugal e o que se pode e deve melhorar. O objetivo, explícito, é ''estimular o ânimo dos portugueses''.
Na edição de hoje, o entrevistado é um literato, Pedro Mexia. Ele resume sua vontade numa frase: ''Tenho uma relação bastante pacificada com Portugal e não sou daqueles que está sempre a flagelar-se''.
Portugal e os portugueses tratam de se reinventar. E isso é bom. Por mim, repito Miguel de Unamuno: ''Quanto mais lá vou, mais quero lá voltar''.