TEXTOS

Meus sonhos e o Francesco trapalhão

19 janeiro de 2012

Nunca imaginei que um comandante de navio italiano, esse incompetente e trapalhão Francesco Schettino, que não conheço pessoalmente, fosse complicar também a minha vida e o meu lazer.
Explico: gosto de navio, tenho gosto por cruzeiros no mar.
Já escrevi sobre o meu fascínio pelos rios, pelos trens e pelas fronteiras da minha infância.
Marcelino Ramos, onde nasci, está plantada às margens do rio Uruguai, na divisa com Santa Catarina. E no meu tempo de menino, aquela era a cidade da grande baldeação. Não existiam pontes rodoviárias. Ou se atravessava o rio, em balsas envelhecidas; ou se cruzava os céus, pela Varig. Restava o trem. E Marcelino Ramos era o ponto final dos caminhos de ferro do Rio Grande.
Todas as noites chegava o ''noturno das dez'', um comboio de vagões puxados pela ''Maria Fumaça'' resfolegante, da então Viação Férrea do RGS. E lá eu estava sempre à sua espera, para recolher jornais e revistas jogados pelos homens de rostos esfumaçados do vagão dos Correios. Queria saber logo as notícias.
Na gare da estação, olhava extasiado para os homens e mulheres que trocavam um comboio por outro, este que os levaria para o centro do país, depois de atravessar a ponte de pilares de pedra e estrutura de ferro.
E ficava a devanear sobre as fantásticas aventuras que haveria de viver aquela pequena multidão de viajantes, depois de atravessar a fronteira. No meu imaginário, as mulheres eram todas fascinantemente lindas, em seus vestidos longos e chapéus sofisticados, tal qual as via no cinema.
E havia o rio.
Gigantesco rio, belo e caudaloso.
Nele aprendi a nadar e pescar as piabas e dourados que então existiam em abundância
Também aprendi a respeitá-lo. Por que na hora da enchente, quando chove aos borbotões nas cabeceiras, o rio sereno se transforma. A água chega aos solavancos, é assustador. Troveja, leva de roldão tudo o que está à sua frente. Mata.
Já a Beth nasceu em outra fronteira. São Borja é divisa com a Argentina, e o mesmo rio Uruguai é o que separa a cidade da vizinha Santo Tomé, província de Corrientes.
Se o rio também a encanta, ela tem, no entanto, enorme temor pelo poder de destruição da água. No rio ou no mar.
Não foi fácil, por isso, convencê-la a subir no Island Star para um cruzeiro tranquilo pela costa brasileira, há uns quatro anos atrás.
O enorme navio navegou sereno e ela agora já estava admitindo a hipótese de um cruzeiro pelas ilhas gregas.
Depois desse incrível naufrágio do Costa Concórdia e de assistir pela televisão as imagens do resgate dos passageiros, ela nem precisava dizer. Sei que só por um milagre vai admitir estar a bordo de um transatlântico outra vez.
O que me fez esse desastrado Francesco.
Além de tudo, abandonou o navio. É covarde


ARTIGOS 2012
mais artigos >>>

Uma previdência mais ajustada

Os estranhos ministros sem função

Meus sonhos e o Francesco trapalhão

O povo e os bons índices de Dilma

O crime de Caxias e a nossa impunidade

A preocupante greve baiana

Deixar a Grêcia morrer?

A tentação irresistível de censurar

Enfim, emoção nas eleições

Uma previdência mais ajustada

Uma previdência mais ajustada

E não se cassa mais ninguêm

A êtica do mercado da fraude

A oposição que não se ajuda

O fascínio de fazer jornal

O poeta, o processo e o mensalão

A perigosa jogada de Cristina

Meritocracia e bico, por que não?

Hora de pensar sem provincianismo

CPI ou apenas mais uma novela ?

Não pode ser ideia de Lula

O vexame de um acordo espúrio

Conversas nem tão republicanas

Armadilhas à espera do pesquisador

CPI ou mais uma novela? (II)

O incrível acordo paulista

E a êtica do Senado Federal?

O Rio dos meus encantos

Sai Demóstenes, entra o "mensalão"

Lições de um mestre do jornalismo

O STF e a opinião pública

Dúvidas e certezas do mensalão

A oratória e o destino do mensalão

Enquanto não existir cidadania

A censura interesseira

A esperada postura dos ministros

A democracia, de Todorov a Rui Falcão

O Caso Kliemann, meio sêculo depois

A denúncia de Marcos Valêrio

Escolha bem, com responsabilidade

Para não perder a esperança

O "mensalão" e as eleições municipais

Os protestos do povo argentino

O recado muito claro do Supremo

Lula, o fenômeno político

Obama, a vitória de um líder

Mia Couto, o conferencista

Os novos tempos do STF

Somos nós os mequetrefes

Limites do jornalismo e do poder

Para não esconder a história

O "mensalão" ainda não terminou

Dois nomes políticos