TEXTOS

Deixar a Grécia morrer?

16 fevereiro de 2012

Nem todos os alemães concordam com ele. Ao contrário. Ele é uma voz isolada entre políticos e economistas da Alemanha.
Mas Peter Bofinger não pode ser desconsiderado.
Ele é um dos membros do Conselho Alemão de Especialistas em Economia – conhecidos como ''Os Cinco Sábios''- um organismo independente que assessora o governo da chanceler Ângela Merkel em matéria de política econômica.
Bofinger concedeu uma corajosa entrevista à Folha de São Paulo, nesta segunda-feira, em que critica fortemente as ações de seu país e a atuação da própria chanceler, responsabilizando-a pelo agravamento da crise na Grécia e demais países da Europa.
Vale repartir com os leitores algumas de suas reflexões.
Sobre os erros cometidos em relação aos gregos:
a) - O prazo foi equivocado. Pensou-se que se poderia mudar uma economia dentro de um ou dois anos. A Grécia precisa de um sistema mais eficiente de impostos, mas isso não se consegue da noite para o dia, pois estão lidando com pessoas reais;
b) – Pretendia-se uma privatização rápida, mas numa economia em depressão não se pode esperar grandes receitas com privatizações;
c) – As estimativas de crescimento para os anos de 2011 e 2012 foram superestimadas;
d) – A Grécia recebeu dinheiro com uma alta sobretaxa de 3% e não com os juros baixos do FMI;
e) – A economia grega está em queda livre. E pedir novas medidas de austeridade só vai acelerar essa queda.
Sobre uma eventual saída da Grécia da zona do euro:
É extremamente ingênuo dizer isso. Porque o próximo afetado seria Portugal. Na Europa, as pessoas têm a crença de que, se não apoiarmos mais a Grécia e ela se tornar insolvente e abandonar o euro, poderemos nos livrar dela. Acontece que ela continuará lá e a União Européia não pode permitir que um país importante entre em desordem pública, de pobreza extrema. Não há alternativa senão manter a ordem na Grécia. Ela faz parte da nossa família. Não podemos construir um muro em volta deles e deixar que morram de fome.
Sobre a possibilidade de uma ruptura da zona do euro:
É cada vez maior. Há muita gente brincando com fogo numa sala que está cheia de gás.
Como aumentar as receitas desses países?
Em todos os países com problemas, o potencial de impor impostos àqueles com alta renda não foi totalmente usado. Na Alemanha pós-unificação, a faixa mais alta foi de 56%. Por que não?
E o papel de Ângela Merkel?
Creio que ela tem responsabilidade pelo agravamento da crise. Ela é parcialmente responsável pelo fato de que uma crise que antes era limitada a determinados países tenha se espalhado por toda a Europa. A abordagem correta para a Grécia deveria ter sido: Vamos encontrar medidas realistas que vocês podem adotar e controlar para sanar suas finanças. E se vocês cumprirem os compromissos, vamos lhes dar dinheiro e salvaguarda a seus credores.
É sempre bom ouvir e ler vozes dissonantes, como é o caso de Bofinger. Fazem pensar. Mesmo que não se concorde com elas.


ARTIGOS 2012
mais artigos >>>

Uma previdência mais ajustada

Os estranhos ministros sem função

Meus sonhos e o Francesco trapalhão

O povo e os bons índices de Dilma

O crime de Caxias e a nossa impunidade

A preocupante greve baiana

Deixar a Grêcia morrer?

A tentação irresistível de censurar

Enfim, emoção nas eleições

Uma previdência mais ajustada

Uma previdência mais ajustada

E não se cassa mais ninguêm

A êtica do mercado da fraude

A oposição que não se ajuda

O fascínio de fazer jornal

O poeta, o processo e o mensalão

A perigosa jogada de Cristina

Meritocracia e bico, por que não?

Hora de pensar sem provincianismo

CPI ou apenas mais uma novela ?

Não pode ser ideia de Lula

O vexame de um acordo espúrio

Conversas nem tão republicanas

Armadilhas à espera do pesquisador

CPI ou mais uma novela? (II)

O incrível acordo paulista

E a êtica do Senado Federal?

O Rio dos meus encantos

Sai Demóstenes, entra o "mensalão"

Lições de um mestre do jornalismo

O STF e a opinião pública

Dúvidas e certezas do mensalão

A oratória e o destino do mensalão

Enquanto não existir cidadania

A censura interesseira

A esperada postura dos ministros

A democracia, de Todorov a Rui Falcão

O Caso Kliemann, meio sêculo depois

A denúncia de Marcos Valêrio

Escolha bem, com responsabilidade

Para não perder a esperança

O "mensalão" e as eleições municipais

Os protestos do povo argentino

O recado muito claro do Supremo

Lula, o fenômeno político

Obama, a vitória de um líder

Mia Couto, o conferencista

Os novos tempos do STF

Somos nós os mequetrefes

Limites do jornalismo e do poder

Para não esconder a história

O "mensalão" ainda não terminou

Dois nomes políticos