TEXTOS

E não se cassa mais ninguém

15 de Março de 2012

Já se sabia, não é novidade.
Nunca, antes, na história deste país, foi tamanha e tão generalizada a corrupção instalada na República.
Se corrupção é um processo endêmico, praticamente inevitável em qualquer governo, de qualquer país, convenhamos que no Brasil as coisas chegaram a níveis realmente inaceitáveis.
Corruptos e corruptores permeiam todos os níveis da administração federal, em menor ou maior escala conforme os valores dos orçamentos dos órgãos públicos.
A diferença em relação a outros países é que neles não há, como aqui, a impunidade de que tanto se tem falado nestas colunas.
Há exatamente um mês, o presidente da Alemanha, Christian Wulff, foi obrigado a renunciar por alguma coisa bem menor do que o nosso famoso ''mensalão'.
Acusado de corrupção e tráfico de influência, Wulff veio a público e anunciou, no dia 17 de fevereiro:
'A confiança dos cidadãos está afetada. Portanto, não posso seguir exercendo minha função. Por isso renuncio'.
A presidência da República na Alemanha é um cargo honorífico, mas deve ser, necessariamente, um exemplo de autoridade moral.
Desde meados de dezembro, Wulff, de 52 anos, vinha sendo alvo de críticas da imprensa alemã, acusado de minimizar um caso de crédito privado obtido da esposa de um amigo industrial, quando ele era chefe do governo regional da Baixa Saxônia.
Lembrei disso tudo ao ler uma interessante e oportuna constatação do professor Modesto Carvalhosa, coordenador de ''O livro Negro da Corrupção'', publicado em 1995, com base nas revelações que levaram o então presidente Fernando Collor à renúncia, três anos antes.
Carvalhosa é um respeitado jurista, ex-professor da USP e ex-presidente do Tribunal de Ética da OAB-SP e tem vários livros publicados.
Perguntado se a corrupção aumentou ou diminuiu no Brasil depois do livro sobre as trapaças de Fernando Collor, ele não deixou dúvidas:
''Aumentou. Na época, prevalecia uma ética na sociedade, que levava os corruptos, ao menos no Congresso Nacional, à cassacão. Hoje a corrupção é mais rasteira e evidente. O instituto da cassacão foi abolido, na prática. O último político atingido foi José Dirceu, em 2005. A sanção política desapareceu, e com isso agora há muito mais campo para corruptores e corruptos''.
Tem toda a razão o professor.
Quantos ministros já caíram por denúncias de corrupção, favorecimentos e ilicitudes, só no atual governo. Alguém foi cassado, punido, está preso?
E vamos reconhecer: há denúncia de toda espécie e para todos os gostos.
Modesto Carvalhosa põe o dedo em outra das feridas da política brasileira: a coalizão de partidos não dá sustentação ao governo, ela apenas divide com ele o poder. Cada partido troca o seu apoio por cargos. E conclui:
''E os partidos, por lotearem o poder, acabam por se unir para evitar a punição de ministros, deputados e senadores''.


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