TEXTOS

A ética do mercado da fraude

22 de Março de 2012

Na manhã da última segunda-feira, à hora do desdejum, Jocelaine, a governanta da casa, perguntou-me se havia assistido ao ''Fantástico'' da noite de domingo.
Não, não assisti.
Ela está sempre interessada em questões de saúde e logo me narrou, com um pouco de espanto, a reportagem que havia visto sobre a corrupção num hospital carioca.
Não cheguei a me surpreender.
Afinal, na última quinta-feira, ao iniciar o texto da crônica semanal, escrevi assim:
''Nunca, antes, na história deste país, foi tamanha e tão generalizada a corrupção instalada na República.''
À noite de segunda-feira, no ''Jornal Nacional'', contemplei a repetição das denúncias e a repercussão inevitável.
E então, sim, fiquei surpreso
A reportagem do ''Fantástico'' não trouxe nenhuma novidade sobre a forma de ação de corruptos e corruptores.
A combinação de preços entre empresas do mesmo ramo para vencer licitações públicas e repartir lucros indevidos é uma velha prática.
E isso já foi repetidamente denunciado pela imprensa.
Recordam os leitores quando repórteres investigativos publicaram anúncios classificados nos seus jornais – alguns de forma cifrada – denunciando o resultado de licitações, antes que elas ocorressem?
Sim, foram vezes sem conta.
O que me surpreendeu, em primeiro lugar, foi a explicação de uma das fraudadoras:
- É a ética do mercado.
Depois, a incrível reação de autoridades que tem sob sua responsabilidade exatamente a apuração de desvios de conduta na administração pública.
Com ar de surpresa, um delegado anunciou a abertura de inquérito. Depois, o Tribunal de Contas da União informou ter adotado providências para apurar responsabilidades e o Ministério da Saúde vai abrir uma auditoria para verificar todos os contratos de terceirização dos hospitais públicos da União.
Mas se a reportagem da TV Globo não trouxe novidades, ela tem, sim, enorme mérito.
Em primeiro lugar por ter mostrado ao país a desfaçatez com que atuam hoje esses fraudadores. E o ar de deboche com que revelaram os esquemas para o repórter que, com autorização do diretor, fazia-se de gestor do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Aliás, o diretor do Hospital, Edmilson Migowski, fez uma oportuna declaração: quem rouba da saúde pública deve ser castigado em dobro.
Outra virtude da reportagem: o país inteiro passou a comentar o tema corrupção.
No almoço de terça-feira, junto com um colega jornalista, ouvimos em várias mesas de um restaurante no centro de Porto Alegre, referências à reportagem do Fantástico.
O que mais pode acontecer? Nas últimas horas, fala-se no Congresso Nacional sobre uma CPI para revolver isso tudo. Difícil, porque não interessa ao governo.
Enquanto isso, vai ferir nossos ouvidos a afirmação da fraudadora:
-É a ética do mercado.


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