TEXTOS

O poeta, o processo e o mensalão

12 de Abril de 2012

O ministro Carlos Ayres Britto vai assumir nos próximos dias a presidência do Supremo Tribunal Federal estimulado não apenas pela perspectiva de um encerramento digno da sua carreira no Judiciário. Leva para o cargo também a sensibilidade de poeta.
Natural do agreste nordestino, fez uma esclarecedora e poética declaração na entrevista que concedeu às ''páginas amarelas'' da Veja desta semana, quando perguntado sobre as mazelas habituais de Brasília.
Está vacinado, disse ele, para entender as dificuldades de convívio com o poder. Há muito jogo de influência e muitos interesses políticos e econômicos.
- Mas eu internalizei muito a postura das garças, que vivem em ambientes enlameados, nos manguezais e brejos, mas quando vão pousar executam uma coreografia tão cuidadosa que conseguem preservar a alvura de suas penas. Observava isso em Sergipe, onde morava antes de vir para cá. Não vejo Brasília só por esse prisma negativo, mas reconheço que há práticas que põem em conluio o poder político e o poder econômico. Nessas ocasiões, aqui e ali, em que sinto que a relação tende a promiscuidade, eu me louvo no exemplo das garças de Aracaju.
Ayres Britto só vai permanecer no cargo sete meses, mas durante esse tempo terá a responsabilidade de colocar em votação o processo mais importante da história do Supremo em termos de direito penal, como ele mesmo o definiu: o processo do mensalão.
Há uma natural expectativa nos meios políticos, jornalísticos e jurídicos, além da própria sociedade, sobre o destino dos ''mensaleiros'', em especial depois que o ministro-relator do processo, Ricardo Lewandowski, alertou para o risco de prescrição das penas.
Perguntado sobre isso, o poeta e ex-militante petista foi didático, mais uma vez, ao dizer que a possibilidade de prescrição existe, sim. De sua parte, já está estudando o processo e mais que isso: tem inclusive uma minuta de seu voto.
Li a entrevista de Ayres Britto no vôo da Aerolíneas Argentina que me trouxe a Buenos Aires nesta última segunda-feira. Sobre os males da política portenha – especialmente as trapalhadas do vice-presidente da República, Amado Boudou, também acusado de corrupção – espero abordá-los no comentário da próxima semana.
Enquanto isso, não há como deixar de lado nossos pecados brasileiros. É preciso cumprir a Constituição, disse o futuro presidente do STF: atos de improbidade importam em perda da função pública; indisponibilidade de bens; suspensão de direitos políticos e ressarcimento do erário público.
Será que um poeta vai mesmo, finalmente, fazer com que isso aconteça?


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