TEXTOS

A perigosa jogada de Cristina

19 de Abril de 2012

As ruas do centro de Buenos Aires estão mais degradadas; o custo de vida mais elevado; os motoristas de táxi menos tolerantes, o povo menos sorridente.
As paredes da glamourosa Confeitaria Richmond, na Rua Florida, estão pichadas, as portas de entrada presas por grossas correntes. E policiais permanecem dia e noite ali, guardando a imagem matizada de um dos pilares do antigo bom viver portenho.
Restam, é claro, os edifícios pomposos, com belas estruturas, lembrança de um passado nem tão distante de um país rico e poderoso, templo de elegância e de cultura.
Hoje, a crise econômica da Argentina está à vista de todos. Durante alguns dias da semana passada, andei por essas ruas envelhecidas que me trouxeram boas lembranças. E acompanhei de perto as notícias sobre o quadro político, reflexo da crise na economia.
O vice-presidente da República, o jovem roqueiro Amado Boudou, foi o grande personagem das primeiras páginas dos jornais, denunciado por comportamentos aéticos pelo Procurador Geral da Nação, Esteban Righi. No cargo desde junho de 2004, ele é um homem extremamente respeitado nos meios jurídicos da Argentina.
Mas o vice é homem de confiança da presidente Cristina Kirchner, recebeu dela todo o apoio e Righi viu-se na contingência de pedir demissão. O pedido foi aceito pela presidente na mesma hora e logo indicado para o cargo Daniel Reposo, amigo íntimo de Boudou.
Outra notícia especulada com insistência concretizou-se nesta segunda-feira: a presidente encaminhou ao Congresso, onde ela tem ampla maioria, projeto de lei que expropria 51% da petroleira YPF – a quase totalidade das ações da empresa espanhola Repsol.
Ao mesmo tempo, editou um decreto de ''necessidade e urgência'', através do qual o governo tomou o controle da empresa e expulsou da sede da companhia os executivos espanhóis.
O argumento de Cristina Kirchner para a expropriação é um só: a YPF não vinha realizando os investimentos necessários para suprir o aumento da demanda.
A empresa havia sido privatizada no governo Menem (1989-1999) e a decisão extrema de agora é vista com cautela pelo mundo financeiro europeu.
É uma jogada de alto risco. Lembra a guerra das Malvinas, quando os generais que governavam o país decidiram invadir o território inglês e foram derrotados.
Poucos têm dúvida de que, com o gesto de agora, Cristina pretenda desviar a atenção dos problemas internos do país.
Mas o custo pode ser elevado demais.
Sem contar outros reflexos, o economista Marcelo Elizondo prognosticou que o principal efeito negativo será a imagem do país para investidores externos:
- Já estávamos isolados. Com essa medida, nossa reputação diante dos países da União Européia cai lá embaixo. Não haverá investidor que aguente.
Pergunte como está Cristina aos portenhos e boa parte responderá com ironia:
- A senhora está bem. Nós, o povo, é que estamos mal.


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