TEXTOS

O vexame de um acordo espúrio

24 de Maio de 2012

Não foi um espetáculo edificante.
Bem ao contrário.
A reunião da CPI de Carlos Cachoeira deste último 22 de maio foi um retrato acabado das mazelas da política brasileira.
Indiferente às acusações de ''bandido'', ''marginal'', ''criminoso'', o acusado manteve-se impassível, obedecendo à orientação do seu advogado, que é nada menos do que o ex-ministro da Justiça do governo Lula, Márcio Thomaz Bastos e reconhecido como um dos mais talentosos profissionais do Direito do país,
A cada pergunta, de um deputado ou de um senador, Cachoeira limitava-se a invocar o direito constitucional de ficar calado para não se incriminar.
E assim se passaram pouco mais de duas horas, até a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) protestar pela inutilidade daquela sessão e propôs o seu encerramento, o que efetivamente aconteceu.
Também o relator da Comissão, Odair Cunha (PT-MG) agiu, a meu juízo, de forma correta. Depois de fazer três ou quatro perguntas, das mais de cem que havia preparado, e ouvir de Cachoeira sua negativa sistemática de não falar, ele se negou a continuar fazendo um papel ridículo.
Mais importante que tudo isso foi o discurso do senador gaúcho Pedro Simon, poucos minutos antes, denunciando da tribuna do Senado o ''acordão'' feito na noite anterior: os líderes dos principais partidos do país (PSDB, PMDB e PT) decidiram blindar seus governadores e eles não serão convocados para explicar a troca de favores com a empresa DELTA, detentora de um fantástico número de obras públicas.
O esquema dessa gigante da construção era simples: para vencer as concorrências, propunha preços abaixo do mercado. Depois, através de aditivos obtidos com o pagamento de viagens e propinas a agentes públicos, os custos das obras chegavam às alturas.
Provas existem e não são poucas.
Conversas interceptadas, fotos e filmes de viagens entre governador e o dono da Delta, o sr. Fernando Cavendish, mostram claramente amizades e conluios absolutamente suspeitos.
Mas podem ficar tranqüilos Sérgio Cabral (PMDB do Rio de Janeiro), Marconi Perillo (PSDB de Goiânia) e Agnelo Queiroz (PT do Distrito Federal). Esses senhores não vão ser incomodados. E não precisam explicar nada.
A preocupação agora é proteger também o dono da DELTA, porque se ele decidir contar tudo – e prestaria com isso um enorme serviço ao país – a casa pode cair.
É muita gente e muito dinheiro envolvidos nesse esquema corrupto e corruptor.
Pode não haver concordância verbal na mensagem enviada pelo líder do PT, Cândido Vaccarezza ao governador Sérgio Cabral:
- A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe você é nosso e nós somos teu.
Mas, na essência, há concordância é total e absoluta.
Tem razão o senador Pedro Simon ao bradar da tribuna:
- É um vexame.


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