TEXTOS

Mia Couto, o conferencista

15 de Novembro de 2012

O ''Fronteiras do Pensamento'', já tradicional ciclo de conferências promovido por empresas gaúchas, sob o comando da Braskem, encerrou a versão deste ano da melhor forma possível.
Mia Couto, um dos grandes literatos da atualidade, correspondeu a todas as expectativas: foi humilde, foi erudito e foi sereno; brincou com o auditório quando preciso; contou histórias simples e humanas, o que encantou a todos e também se aprofundou em temas que embalam fronteiras e pensamentos.
O título da palestra foi criado por ele pouco antes de iniciá-la, e apenas porque os organizadores lhe perguntaram qual era. Ele respondeu: repensar o pensamento. E justificou: o pensamento serve para um revisitar permanente.
Mia Couto, nascido em Moçambique, é um dos autores mais expressivos de língua portuguesa, e um dos maiores nomes da literatura africana.
Tem livros de contos, poesias, romances, e aproveitou a viagem ao Brasil para lançar, em Porto Alegre, seu título mais recente, A Confissão da Leoa, uma história vinculada à terra onde nasceu, um dos seus temas preferidos.
O romance acontece numa aldeia moçambicana que passa a sofrer o ataque de leões: eles devoram as mulheres do lugar. Um caçador e um escritor são enviados até lá, um para exterminar os animais, outro para documentar a caçada.
A história, mais que isso, é a realidade de mulheres que já viviam numa sociedade arcaica, em que os perigos, maior que as feras, vinham de uma cultura patriarcal:
- Antes de serem devoradas pelos leões, elas já haviam sido devoradas pela vida que viviam, explicou Mia Couto.
Ele começou a palestra falando sobre a origem da palavra fronteira, nascida na linguagem da guerra. Maior que os limites por ela estabelecidos é o desejo do homem de ser livre. Por isso é que nasceu, em plena guerra, um código possível de ser transmitido no escuro, porque os soldados queriam se comunicar, acima de qualquer outra vitória. E desse código de esperança nasceu o Código Morse.
Rasgou-se em elogios ao Brasil, não para ser apenas cordial, mas para dizer que, se Bush invadiu o Iraque usando a mentira das armas de destruição em massa, o Brasil tem em sua simpatia uma arma de construção massiva.
- Simpatia é a capacidade de cada um ser o outro. O público gostou quando ele disse que o discurso do politicamente correto ''é um crime contra nossas sociedades e sua originalidade''.
Ao final, foi aplaudido de pé, depois de cunhar a expressão ''fronteiras da esperança''.

+++


Frases esparsas de Mia Couto, de um site português:
- A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rasto.
- Quando já não havia outra tinta no mundo o poeta usou do seu próprio sangue. Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo. Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado. Como o sangue: sem voz nem nascente.
- A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.


ARTIGOS 2012
mais artigos >>>

Uma previdência mais ajustada

Os estranhos ministros sem função

Meus sonhos e o Francesco trapalhão

O povo e os bons índices de Dilma

O crime de Caxias e a nossa impunidade

A preocupante greve baiana

Deixar a Grêcia morrer?

A tentação irresistível de censurar

Enfim, emoção nas eleições

Uma previdência mais ajustada

Uma previdência mais ajustada

E não se cassa mais ninguêm

A êtica do mercado da fraude

A oposição que não se ajuda

O fascínio de fazer jornal

O poeta, o processo e o mensalão

A perigosa jogada de Cristina

Meritocracia e bico, por que não?

Hora de pensar sem provincianismo

CPI ou apenas mais uma novela ?

Não pode ser ideia de Lula

O vexame de um acordo espúrio

Conversas nem tão republicanas

Armadilhas à espera do pesquisador

CPI ou mais uma novela? (II)

O incrível acordo paulista

E a êtica do Senado Federal?

O Rio dos meus encantos

Sai Demóstenes, entra o "mensalão"

Lições de um mestre do jornalismo

O STF e a opinião pública

Dúvidas e certezas do mensalão

A oratória e o destino do mensalão

Enquanto não existir cidadania

A censura interesseira

A esperada postura dos ministros

A democracia, de Todorov a Rui Falcão

O Caso Kliemann, meio sêculo depois

A denúncia de Marcos Valêrio

Escolha bem, com responsabilidade

Para não perder a esperança

O "mensalão" e as eleições municipais

Os protestos do povo argentino

O recado muito claro do Supremo

Lula, o fenômeno político

Obama, a vitória de um líder

Mia Couto, o conferencista

Os novos tempos do STF

Somos nós os mequetrefes

Limites do jornalismo e do poder

Para não esconder a história

O "mensalão" ainda não terminou

Dois nomes políticos