TEXTOS

Limites do jornalismo e do poder

06 de Dezembro de 2012

A edição do jornal Folha de São Paulo do último domingo é excelente para quem queira conhecer na prática o que são a liberdade de imprensa e os limites do poder.
Entre o noticiário sobre as travessuras da sra. Rosemary Noronha, ex-chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, está uma nova informação: ela conseguiu que uma empresa do Banco do Brasil contratasse a firma que tem seu marido, João Vasconcelos, como diretor e um genro como sócio.
A empresa se chama New Talent e recebeu R$ 1,12 milhão da Cobra, braço tecnológico do BB, num contrato com dispensa de licitação, por um trabalho de reforma das instalações da Cobra. As assinaturas do marido e do genro, Carlos Alexandre Damasco Torres, estão no contrato.
Foi assinado em maio de 2010, quando o vice-presidente de tecnologia do BB era José Luiz Salinas, apadrinhado do ex-ministro José Dirceu e do deputado Ricardo Berzoini.
Quem fez a intermediação, obtendo inclusive um documento supostamente falso, segundo a Polícia Federal, comprovando a capacidade da empresa de prestar o serviço, foi Rosemary, a Rose. Isso é informação, não desmentida por ninguém, até porque nenhum dos envolvidos no episódio se dispôs a falar à imprensa.

+++

Na página ao lado, da mesma edição da Folha, está a manifestação do ex-ministro José Dirceu. Ele também não desmentiu o noticiário.
Cuidou apenas de denunciar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que agora ''chancela e apóia'' aquilo que ele definiu como ''Operação Mensalão 2'':
''O ex-presidente – disse ele – devia ter o recato e a humildade de se calar, e não usar essa questão para fazer crítica ao ex-presidente Lula.''
Para José Dirceu, ''há um novo udenismo que age como no passado, de novo a serviço do conservadorismo e dos privilégios de certa elite...'' e segue numa linguagem e num discurso repetido e desacreditado.
Essa também é uma informação, mesclada com opinião. Pode-se achá-la bizarra, a opinião, mas assim é.

+++

E, finalmente, uma opinião, da ombudsman do jornal, Susana Singer, ao analisar a questão da privacidade dos homens públicos.
Seu trabalho é criticar a própria Folha, sempre que necessário, e explica:
''Sem usar a palavra ''amante'', o jornal conta que, nas 23 viagens internacionais em que Rosemary acompanhou Lula, a então primeira-dama, Maria Letícia nunca estava. Segundo a reportagem, havia um esquema especial que permitia o acesso à suíte presidencial nessas escapadas''.
E pergunta: ''A Folha invadiu a privacidade de Lula? Sim. Era necessário? Sim.''
Por quê? Porque o relacionamento Rose-Lula resvala para a esfera pública. ''Se o ex-presidente tiver incensado Rosemary por causa de um romance, isso teve conseqüências políticas'', pois segundo a Polícia Federal, Rose conseguiu ''colocar, em postos-chaves do governo, amigos corruptos, que vendiam pareceres jurídicos favoráveis a empresários''.
Quer dizer: há limites, tanto para o jornalismo como para os poderosos de plantão, no quesito privacidade.


ARTIGOS 2012
mais artigos >>>

Uma previdência mais ajustada

Os estranhos ministros sem função

Meus sonhos e o Francesco trapalhão

O povo e os bons índices de Dilma

O crime de Caxias e a nossa impunidade

A preocupante greve baiana

Deixar a Grêcia morrer?

A tentação irresistível de censurar

Enfim, emoção nas eleições

Uma previdência mais ajustada

Uma previdência mais ajustada

E não se cassa mais ninguêm

A êtica do mercado da fraude

A oposição que não se ajuda

O fascínio de fazer jornal

O poeta, o processo e o mensalão

A perigosa jogada de Cristina

Meritocracia e bico, por que não?

Hora de pensar sem provincianismo

CPI ou apenas mais uma novela ?

Não pode ser ideia de Lula

O vexame de um acordo espúrio

Conversas nem tão republicanas

Armadilhas à espera do pesquisador

CPI ou mais uma novela? (II)

O incrível acordo paulista

E a êtica do Senado Federal?

O Rio dos meus encantos

Sai Demóstenes, entra o "mensalão"

Lições de um mestre do jornalismo

O STF e a opinião pública

Dúvidas e certezas do mensalão

A oratória e o destino do mensalão

Enquanto não existir cidadania

A censura interesseira

A esperada postura dos ministros

A democracia, de Todorov a Rui Falcão

O Caso Kliemann, meio sêculo depois

A denúncia de Marcos Valêrio

Escolha bem, com responsabilidade

Para não perder a esperança

O "mensalão" e as eleições municipais

Os protestos do povo argentino

O recado muito claro do Supremo

Lula, o fenômeno político

Obama, a vitória de um líder

Mia Couto, o conferencista

Os novos tempos do STF

Somos nós os mequetrefes

Limites do jornalismo e do poder

Para não esconder a história

O "mensalão" ainda não terminou

Dois nomes políticos