TEXTOS

Acabo de ser assaltado

09 de Maio de 2013

Foi há uma semana, na sexta-feira, 3 de maio.
Fui assaltado, sobrevivi, fui rezar aos meus santos.

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Era uma manhã de intensa neblina.
Aguardei que surgisse o sol, por volta de 11 horas. Só então fui para o Parque Marinha do Brasil, onde faço caminhadas, sempre que possível.
Bem menos gente que o habitual, talvez pelo tempo tão instável. Também não vi qualquer guarda ou policial.
Findo o trajeto, sentei-me num banco da parte central, onde há o Monumento à Marinha, com âncora e espelho d'água, cenário bonito para as fotos de crianças nos passeios de domingo.
Dois rapazes chegaram por trás, sem que eu os visse, um postou-se em pé, à minha frente, o outro sentou ao meu lado. Com o boné escondendo metade do rosto e a mão direita dentro da jaqueta, indicando que no bolso havia uma arma, ele disse:
- Conhece o esquema, não é, tio? Me passa o relógio.
Tirei com calma o relógio do pulso, enquanto imaginava a próxima perda, os contatos todos do celular.
Eu os olhei. Eles me olharam.
Sempre levo comigo algum dinheiro para emergências. Como era o caso. Se for um viciado, quem sabe ele há de ficar satisfeito com a entrega do suficiente para o próximo passo: a compra de uma pedra de crack.
E quando o homem pediu o celular, imaginei negociá-lo: dou-lhe os reais, fico com o aparelho.
- Sou cardíaco, preciso falar com o médico - eu disse, com a mão no peito.

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Diante da ideia de um coração maltratado, eles podem ter se imaginado numa enrascada.
E se esse homem sofre uma parada cardíaca e morre aqui, agora? Pediram desculpas, saíram caminhando com evidente pressa, mas sem medo.
Só no momento seguinte me dei conta da imprudência: por que não entreguei logo o celular? E se eles decidissem, ao contrário do que fizeram, apressar a minha morte, como fazem com tantos que não chegam a ter tempo de entregar-lhes o que querem?
Perdoem-me os familiares e os amigos se houve uma reação imatura, eu deveria ter aprendido todas as lições com o assassinato de meu irmão.
No seu caso, ele não reagiu, levantou os braços em sinal de entrega, e eles o feriram com um tiro mortal.
Permaneci calmo durante o tempo do meu assalto. Só mais tarde tive consciência do medo, só na tarde daquele dia as mãos e as pernas tremeram e senti uma enorme sensação de desamparo.

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No domingo, fui orar para Santa Terezinha, a mesma santa que me salvou a vida, segundo minha mãe, quando era um menino e adoeci.
Só resta rezar.
Porque ao Estado não adianta recorrer. Esse ente poderoso e implacável arrecadador, que deveria nos garantir segurança e tranquilidade, não tem respostas para nossos dramas.
Eles, os criminosos, dominam tudo e todos. Decidem se é ou não nossa hora de morrer. No meu caso, quem sabe por serem também eles principiantes, deixaram-me viver.