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As ''chispas'' da indignação

20 de Junho de 2013

Há dez dias, esteve em Porto Alegre, convidado especial do ciclo Fronteiras do Pensamento, o sociólogo espanhol Manuel Castells. Ele é hoje um dos pensadores mais requisitados em Universidades e em fóruns de debates sobre as implicações de um mundo cada vez mais conectado através de redes sociais e a evolução das sociedades modernas.
Quem teve oportunidade de ouvi-lo recolheu bons subsídios para refletir sobre o que ocorre nas ruas e praças de grandes metrópoles, no Brasil e no mundo, com protestos nem sempre pacíficos.
Castells escreveu vários livros, com destaque para a trilogia A Era da Informação, estudo fundamental sobre os impactos da tecnologia na política, na cultura, na economia, na sociedade.

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São ''chispas de indignação'', disse o sociólogo, para definir a onda de protestos que invade o mundo.
Lembrou que essas ''chispas'' foram identificadas no Occupy Wall Street, ocorrido em dezenas de cidades americanas e não apenas em Nova York; no movimento espanhol Indignadas e na ocupação da praça Taksim, na Turquia.
Neste último caso, os protestos iniciais tiveram por motivação o projeto do governo de substituir a praça por um conjunto arquitetônico de interesse empresarial.
Pacífico, inicialmente, o movimento passou a aglutinar insatisfações de todas as origens, muitas delas de indignação contra o governo.
Há semelhanças nas ações: não existe um líder formal, tal qual estamos acostumados; articula-se a ocupação de espaços públicos, na internet e nas cidades; são movimentos autônomos, locais e globais; quanto mais repressão, mais imagens.
E as imagens são fundamentais, elas é que serão reproduzidas nas redes sociais para gerar ainda mais protestos. Parece claro que esses movimentos todos reivindicam mudanças e mais democracia, sem que eles saibam, exatamente, que democracia é essa assim reivindicada.

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No caso do Brasil, são muitas as razões que justificam os protestos. Além da tarifa do transporte coletivo, há na voz das ruas ''chispas'' pelos gastos exagerados do governo, pela corrupção e pela impunidade, pela péssima qualidade da saúde e da educação, pelo alto custo de vida, pela carga de tributos que sufoca as empresas.
Muitos brasileiros há que não concordam com os custos dos estádios construídos para a Copa das Confederações e a Copa do Mundo.
Ou se imagina que o povo é capaz de aceitar a insensatez da construção de um Mané Garrincha, em Brasília, ao custo de um bilhão e trezentos milhões, para sediar meia dúzia de jogos? E o que será feito com esses gigantescos equipamentos em cidades e Estados onde sequer há equipes de futebol?

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Essas ''chispas de indignação'', originadas de emoções, é que provocam mudanças sociais ao longo da história.