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Quando ninguém é responsável

31 de Janeiro de 2013

Ecoam ao nosso redor sons e vozes inconfundíveis da enorme tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, no último fim de semana. Não se vai esquecer nunca os gritos desesperados daqueles jovens.
- Cadê o Fernando? - implorava uma voz de menina.
Fernandos, Paulas, Pedros, Andressas e dezenas de outros estão mortos, capturados pela fumaça negra que invadiu seus pulmões e suas vidas.
Eram universitários não apenas de Santa Maria. Eles vieram de todas as regiões do Rio Grande, alguns de outros Estados, e pelo menos um do exterior.
O Brasil e o mundo ficaram de luto.

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Acompanhei, desde o início da manhã de domingo, a evolução daqueles episódios dramáticos
. Minha irmã, que lá reside, viveu alguns momentos aterrorizantes: ela não conseguia contato com seu filho Diego, músico. Ele não deveria estar lá, tinha outra programação, mas é impossível consolar o coração de uma mãe angustiada.
Então ela ligou, por volta de 10 horas, para dizer que estava tudo bem, ela enfim ouvira a voz do filho e, além disso, a filha, Fernanda, estava em Santa Catarina, ela que costumava frequentar a Kiss.

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Passei a ouvir explicações de toda ordem sobre responsabilidades. E ninguém era responsável.
A Prefeitura de Santa Maria informou que a documentação da Kiss estava regular; o governo do Estado, num primeiro momento, debitou ao município o poder e as consequencias de legislar nessa área, depois recuou, diante da evidência de que também a Brigada Militar tem responsabilidades neste caso.
Na segunda-feira, à noite, assisti a um debate na TV entre representantes de organismos públicos ligados à prevenção e ao licenciamento de boates e casas assemelhadas. Fantástico: todos se dizem cumpridores da lei, e se há falhas é da legislação. Só faltou dizer que os 235 mortos contabilizados até agora são os verdadeiros culpados pela tragédia do domingo.
Terça-feira, prosseguiu o jogo de empurra, especialmente entre a Prefeitura de Santa Maria e autoridades do Corpo de Bombeiros, a ponto de uma delas ser desautorizada pelo governador do Estado durante uma entrevista coletiva.


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Isso tudo nos choca e nos intraquiliza. E fico a imaginar o quanto pode ainda ser maior o sofrimento de familiares e amigos das vítimas, diante dessa fuga de responsabilidades.
Está muito claro que a tragédia da boate Kiss ocorreu por conta não apenas de falhas na legislação: muitos não cumpriram seu dever de fiscalizar, alertar, denunciar e impedir que a casa estivesse funcionando sem segurança.
Espera-se que os pedidos de justiça não sejam esquecidos com o passar do tempo e que as promessas dos governos, de uma legislação mais clara e adequada, realmente se concretizem. Que não aconteça a impunidade que acabou ocorrendo no caso do naufrágio do ''Bateau Mouche'', no Rio de Janeiro, em dezembro de 1988, e em tantos outras tragédias do país.