TEXTOS

Quando os políticos não se ajudam

07 de Fevereiro de 2013

O que é mais indecoroso na eleição de Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves para a presidência do Senado e da Câmara Federal?
Escolha, leitor, a opção que lhe parecer mais adequada:
1 - É a escolha em si, de dois parlamentares sobre os quais pesam acusações severas de corrupção e malversação de dinheiro público. Renan é aquele mesmo que tinha uma amante, a jornalista Mônica Veloso, e com ela um filho e cuja pensão era paga por empreiteira, com dinheiro vindo de obras públicas.
2 - A composição da mesa da Câmara, integrada, além de Henrique Alves, por Maurício Quintella (PR-AL) e Hidekazu Takayama (PSC-PR), ambos respondendo a ações no STF por peculato.
3 - O discurso de Renan Calheiros, defendendo a ética como meio e não como fim. E sua conclamação para '' união de todos pelo bem comum'', para o ''patriotismo'' e o pedido de uma ''benção de Deus''.
4 - A foto de Renan subindo a rampa do Congresso Nacional para a abertura do ano legislativo, sob o protesto e o xingamento de populares, que o chamavam de ''safado'', ''sem vergonha'' e ''ladrão''.
5 - As ameaças de Henrique Alves de que vai colocar em votação projetos que incomodam o governo, ele que foi eleito com o aval do Planalto.
Pode-se optar por mais de uma das hipóteses, afinal nada disso parece importar à grande maioria de deputados e senadores que os escolheram.
Mais que indecorosa, é preocupante a declaração do novo presidente da Câmara Federal de que não vai cumprir a decisão do STF que determinou a cassação automática dos quatro deputados condenados no julgamento do ''mensalão''.
Ele produziu uma frase de efeito:
- Não se esqueçam que aqui nesta Casa só tem parlamentar abençoado pelo voto popular deste imenso Brasil. Frases bonitas à parte, esse é um enfrentamento que não interessa ao país.
O presidente do STF, Joaquim Barbosa, foi cauteloso, ao ser indagado sobre a manifestação da Câmara: - No Brasil, qualquer assunto que tenha natureza constitucional, uma vez judicializado, a palavra final é do Supremo Tribunal Federal.

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Convenhamos que os políticos brasileiros não se ajudam para melhorar a imagem perante a opinião pública. De nada adianta Henrique Alves proclamar que o Parlamento ''é o mais atacado dos Poderes porque é o mais transparente''.
Nem isso é tão verdade - o Poder Executivo é, regra geral, o mais criticado dos Poderes - nem uma coisa exclui a outra. O fato de a Câmara ser transparente não pode justificar comportamentos inidôneos dos membros da Casa.

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Decepcionado com a política, Tiririca, o mais votado deputado do país em 2010, anunciou que não vai mais concorrer à Câmara Federal, na busca de um novo mandato.
Informa que aprendeu muito durante esses dois anos: - Aqui é uma escola. Aprende-se tanto a ir para o caminho legal quanto ir para o ''outro caminho''.
Nunca foi convidado para o ''utro caminho'', está satisfeito com o que viu, prefere voltar a ser palhaço.